sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Choveu de espumar

Choveu de espumar
Sylvia Seny

O causo é verídico.
Estava em plena adolescência, na fase em que os hormônios e o coração dançam no mesmo ritmo. Éramos  bons amigos até então. Bom, nem tão amigos assim...!
Eu já tinha uma quedinha por ele, e ele era um tanto tímido.
Numa conversa no ônibus, (que eu pegava propositalmente no mesmo horário que ele) na volta do trabalho, marcamos um cinema para o sábado próximo.
Só que o passeio não aconteceu porque ele tinha que ser guia turístico para a mãe que acabara de chegar a São Paulo e queria visitar uns parentes.
Mas, o programa não foi frustrado totalmente, eu fui insistente, remarquei o compromisso pro domingo.
Bem, o encontro para ir ao cinema em Santo André seria no bairro onde minha irmã morava. Fui dormir na casa dela no fim de semana. No entanto, as dificuldades estavam apenas começando. Minha irmã saiu no domingo e eu estava jogando vôlei na rua, tive que pular a janela pra tomar banho e trocar de roupa.
Só que esqueci minha bolsa no quarto dela e, como ele costumava ficar trancado, não tinha hidratante de pele, nem perfume à vista. Tive que improvisar.
Uma amiga, na época do ginásio, tinha o costume de molhar o sabonete e passar a espuma na pele. Ela dizia que isso hidratava. Eu acreditei! Quase toda dura de sabonete, penteei o cabelo, vesti a roupa da minha irmã que estava à mão e fui ao cinema assistir "Uma cilada para Roger Rabbit".
Mal sabia eu que a cilada era para eu mesma!
Toda tímida, pegamos o ônibus rumo ao centro de Santo André. No caminho caiu o maior toró, eu já estava apreensiva porque achava que ele observava muito as moças dentro do ônibus. Pensei: “Isso não vai virar nem um beijo, quanto mais namoro".
Quando chegou no ponto pra desembarcar, a chuva apertou mais e começamos a correr. Eu mantinha a cabeça baixa e, apavorada, vi que de dentro da moleca de pano que eu usava nos pés começou a sair espuma. Meu pé parecia emanar sabonete conforme eu ia correndo.
Meu paquera apertava minha mão gritando algo que eu nem sequer pensava em ouvir. Achava que ele estava vendo a enxurrada de espuma que escorria da sapatilha. Aí ele parou, girou nos calcanhares de frente pra mim, bem em cima do viaduto onde a chuva teimava em ficar mais intensa. Segurou meus ombros baixou a cabeça e gritou bem alto:
¾ Quer namorar comigo?
Pois é, eu também não acreditei! Que se danasse a espuma! Fiquei na ponta dos pés e danei-lhe um beijo!
Bom, eu só contei pra ele isso dez anos depois. Bendita chuva!

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